Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Espanha – Um olhar sobre La Crisis

André Silva | C13

 

         Centrocar

         Madrid | Espanha

 

Nuestros Hermanos, como carinhosamente os Portugueses se referem aos Espanhóis que a meu ver, só tem esse significado pela proximidade geográfica e por existir também alguma ligação cultural. Na medida em que, se deitarmos um olhar mais atento a este País, apercebemo-nos de enormes diferenças em cada virar da esquina, em cada rua - calle, no Idioma, nos hábitos sociais, formas de pensar, de trabalhar, de atitude para enfrentar as adversidades da vida, até na economia, tudo é diferente. Chego mesmo a concluir que aqui em Espanha a crise é distinta da que se vive, tanto em Portugal, como no resto do mundo.

 

Olhando um pouco para a história recente espanhola, vemos que até há bem pouco tempo, este país era o campeão do crescimento económico. Viveram-se tempos de grande euforia económica, em que tudo se vendia, tudo se comprava, a oferta de trabalho era abundante e variada, os salários eram considerados bons (muito acima dos praticados em Portugal), permitindo a aquisição de todo o tipo de bens, casa, carro e afins… quase toda a gente mostrava poder de compra, exteriorizava bem-estar e aparentava felicidade.

 

Pesquisando o porquê desta euforia económica, somos conduzidos, inevitavelmente, a olhar para dois importantes sectores, considerados os pesos pesados no desenvolvimento de uma economia. O sector imobiliário/construção civil e o sector bancário. Claro que uma economia fluorescente normalmente atrai os olhares de toda a gente, especialmente os da comunidade de trabalhadores de países menos desenvolvidos, onde a precariedade de trabalho e condições de vida são uma constante do dia-a-dia.

 

Daí, a Espanha ter praticamente sido invadida por uma quantidade razoável de imigrantes, em busca do El Dorado. Esta invasão massiva teve como consequência imediata a procura de habitação e, dado que a procura excedia em larga escala a oferta, motivou a construção exponencial de imóveis, com reflexos imediatos na especulação imobiliária. O sector bancário aparece como agente financiador de todo este mercado emergente que parecia uma fonte inesgotável de proveitos. A procura e a atribuição de créditos bancários para aquisição de bens apontava para ganhos avultados, para os sectores que directamente originaram esta explosão. A Espanha estava para as empresas e negócios como o paraíso para o Homem.

 

Com o despoletar da crise financeira a nível mundial, a Espanha apresentou uma economia em grande parte sustentada pelos sectores imobiliário/construção e bancário, mostrando toda a fragilidade em que a mesma estava sustentada e ressentiu-se disso como nenhum outro país da Zona Euro.

 

Em cerca de um ano e meio, a taxa de desemprego aumentou mais de 50%, cifrando-se actualmente em cerca de 17 %, correspondendo a cerca de 4.000.000 de desempregados.

O sector imobiliário/construção estagnaram e, em efeito “bola de neve”, arrastaram consigo uma boa parte de outros sectores da economia deste País, tais como o do automóvel e das máquinas para a construção, etc., com registo de quebras nas vendas da ordem dos 65% a 80% respectivamente. A economia deste País, neste momento, avança e recua como um motor aos solavancos. Crescimento efectivo, só mesmo na taxa de desemprego e no crédito mal parado, este último com repercussões sociais, com a subsequente venda em hasta pública de imobiliário (habitações, lojas, naves) e de veículos.

 

Reconheço que numa conjuntura como esta, haverá sempre operações cirúrgicas de mercado, as quais resultarão no desaparecimento dos elos mais fracos, sejam eles empresas frágeis, com os consequentes despedimentos, especuladores inveterados ou investidores incautos. No entanto há um sector que tem sentido muito menos os efeitos adversos desta crise - o sector da Restauração.

Os estabelecimentos de restauração, incluindo os de diversão nocturna, (pese embora o facto de existir um decréscimo da procura da ordem dos 10% - 15%), têm reagido bem à situação, oferecendo  redução dos preços, procurando assim atrair mais clientes, que a par de uma cultura de “rua”, contribuem deste modo para que estes estabelecimentos se encontrem sempre cheios de gente pronta a consumir.  

A realidade é que, esta crise, tem provocado uma transformação progressiva da atitude desta sociedade e após o período da euforia económica com taxas de crescimento na casa dos dois dígitos, vivemos actualmente tempos de acalmia, de estagnação, diria mesmo de contracção da economia. A solução tem-me parecido simples e vem directamente da expressão “temos de encarar a realidade e enfrentá-la”.

 

Desta forma, as empresas têm vindo, mais do que nunca, a estudar e analisar as suas fraquezas e os seus pontos fortes, ensaiando métodos de contenção, cortando nas despesas, reestruturando-se, procurando outros mercados e espreitando novas oportunidades, de modo a fortalecerem-se, para assim resistirem à crise e, no futuro estarem mais fortes e mais bem preparadas.

 

É evidente que, analisando esta crise global sob o ponto de vista didáctico, verificamos que da pior forma houve um ganho de “know-how”, quer pela parte empresarial, quer pela parte individual e que, talvez de outra forma, essa aprendizagem fosse bem mais difícil de obter.

 

Olhando de novo para o passado, a história tem-nos mostrado que a Espanha já viveu crises complicadas; no final dos anos 70, após a morte do general Franco, com 2 dígitos de inflação, no fim dos anos 80 quando cerca de 50 bancos tiveram de ser intervencionados pelo Estado e no anos 90 com o desemprego na casa dos 24%. Em todas elas a via foi quase sempre a mesma. O segredo está à vista, um dos grandes recursos do País também tem sido a família, que se desdobra até ao parentesco mais longínquo, dando sempre um ombro para os mais carenciados, até estes encontrarem as condições mínimas de sobrevivência com dignidade.

É um pouco olhando para esse passado e, se a isso juntarmos que a Espanha tem um tecido social modernizado, um sistema de saúde socializado, onde toda a gente tem assistência médica, que tenho a convicção profunda que, embora nada mais seja como dantes, uma vez mais a Espanha encontrará o seu caminho, onde surgirá uma economia mais estável, mais estruturada, fortalecida pela poupança dos recursos monetários de cada família e pela poupança dos recursos energéticos, uma solidez institucional apoiada em valores sociais mais consentâneos com a globalidade em que vivemos, com maior uniformidade de critérios e uma maior defesa e valorização do indivíduo, dentro de uma sociedade, como factor essencial ao desenvolvimento e prosperidade de um País.   

publicado por visaocontacto às 17:50
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