Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Aculturação

Cristina Fernandes | C13
 
Consulgal Hungaria
Budapeste | Hungria
 

Escrever sobre o meu processo de Aculturação neste Estágio, faz-me pensar que embora esta não seja a primeira vez que vivo fora do país onde nasci e cresci, nem a primeira experiência de trabalho fora dele, é sem dúvida, a primeira vez que me encontro a viver num sítio onde a Língua me surge como algo tão distante e de tão difícil apreensão.

 

A sensação de não pertença instala-se, ou instalou-se em mim, disfarçadamente, sem que me fosse dando conta. Por esta altura, mais de 4 meses passados, habituei-me com naturalidade a não compreender os avisos sonoros do tram, do metro, do bus, os recados deixados na entrada do edifício, os jornais na rua e um sem fim de contactos ocasionais no dia-a-dia.

 

O processo vivido até agora foi variando ao longo do tempo. Pela minha experiência, não creio que se possa definir de forma clara, estados distintos de encontro ou desencontro com a nova cultura a que estamos expostos. No entanto, concordo que há uma série de etapas que provavelmente serão comuns à maior parte de nós.

 

foi uma vontade e uma opção viver no estrangeiro

Parece-me que, inicialmente, a chegada a um país novo, a necessidade de ter de lidar com uma série de aspectos práticos, nomeadamente: habitação,    contas, transportes, emprego, ruas e percursos, nos obriga a uma dinâmica que elimina espaço para dúvidas ou longas meditações. Acrescida a estas necessidades práticas vem a curiosidade e vontade de conhecer o nosso novo ambiente. Porque, para mim, ao interesse e talvez até à necessidade de me deparar com situações novas que me forcem a redefinir, que me tragam a sensação de que de repente nada é familiar, vem associada uma tendência para criar novas rotinas. Encontrar o café da vizinhança, a mercearia que está aberta ao fim de semana, o cinema onde os filmes não são dobrados em húngaro, os sítios para estacionar a bicicleta, tudo isto acaba por ocupar os tempos fora do trabalho e eliminar a sensação de desenquadramento. A vontade de viajar e de conhecer o país é também, no meu entender, um factor fundamental nesta primeira descoberta das novas fronteiras.

 

No entanto, à  medida que o tempo passa e que a cidade começa a tornar-se mais confortável, deixam de existir descobertas constantes e passam a ser simplesmente rotinas, mais ou menos agradáveis, consoante o que se foi encontrando pelo caminho.

 

Talvez por isso, porque são tão facilmente fabricadas, não é nas rotinas que sinto as grandes diferenças, é no confronto com as pessoas, aliás, com a diferença de valores e de formas de estar. De maneira alguma pretendo dizer que os meus, ou os do meu país são melhores ou piores, mas serão sem dúvida diferentes, e não sinto que seja imediata a proximidade com os Húngaros. Sinto que, no contacto diário, as pessoas são afáveis e, se solicitadas, tentam ajudar, mas são também algo fechadas e tímidas. Por outro lado, num ambiente mais descontraído serão até ávidos de comunicação, por vezes muito fugaz e que nem sempre se consolida. Parece-me que este é, sem dúvida, um país de extremos, de muito frio e muito calor. 

 

O que por outro lado se instalou rapidamente, foi a valorização do espaço exterior de uma forma bastante mais consciente. Porque o Inverno pesa e é longo, aproveitar um dia de sol, um bocado de relva, um passeio de bicicleta, a possibilidade de estar fora de casa, é algo que não deixo de fazer hoje em dia.

 

Posso dizer que, para mim, foi uma vontade e uma opção viver no estrangeiro. Não me surge a dúvida de querer continuar ou não a viver num país que não o primeiro em que vivi, no entanto, nesta altura começo a sentir falta do que me é familiar, que me define e me faz perceber as minhas fronteiras. E julgo que essa ausência prolongada não seja benéfica para as decisões a tomar neste período final do estágio, onde questões como continuar ou mudar se instalam.

 

Não sei se me apercebo, neste momento, de tudo o que trouxe, que levarei ou que me transformou. Mas sei que continuo a acreditar cada vez mais, que viajar nos enriquece, que o confronto com a diferença é benéfico, ainda que nem sempre agradável, e que estarei sem dúvida diferente. Não sei se nas vontades, mas na capacidade de aceitação, de dinamismo, de confronto com a solidão, com o desajuste, com a necessidade de me alterar, adaptar ao que me rodeia, e também com a decisão de rejeitar aquilo que não quero, de afastar mudanças e formas de estar com as quais não me identifico, nem pretendo abarcar.

 

Creio que a Aculturação se trata disto mesmo, do confronto de duas culturas, da forma como se absorve e se rejeita aspectos de ambas, e a identidade que surge como produto de tudo isto.

Talvez nada disto seja claro, nem sei se alguma vez o será. Mas se há algo que quero deixar da minha experiência até hoje é que: Vale a pena.

publicado por visaocontacto às 14:45
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