Sábado, 20 de Junho de 2009

Entre o Mediterrâneo e o Sahara

Pedro Caprichoso | C13

SECIL

Gabès  | Tunísia

 

Quando penso em “aculturação”, penso imediatamente na Língua, na Alimentação e – claro está – nas Pessoas. Comecemos pelas últimas:

 

As pessoas

 BRUSCAS VARIAÇÕES DE HUMOR. Esta é a característica que mais demarca os Tunisinos a nível pessoal. Tão depressa estão no fundo do poço – deveras deprimidos – como no topo da montanha – felicíssimos da vida. Exemplo disso foi o episódio que testemunhei pouco depois de chegar à Tunísia. Certo dia apareceu-nos à porta do gabinete um velhote com o ar mais simpático do mundo. Como apenas se conseguia expressar em árabe, um colega português conduziu-o, então, a um gabinete contíguo para, com ajuda, sabermos ao que vinha. Eis senão quando o velhote desata a gritar a plenos pulmões. Eu não os acompanhei, pelo que somente perscrutei os gritos. E deixem-me que vos diga que perscrutar gritos em Árabe é, seguramente, uma das coisas mais assustadoras que já

Uma mistura enjoativa de catinga, perfume roscofe e fruta
experimentei nesta vida. O motivo da altercação não é para aqui chamado. Importa apenas dizer que senti uma pena terrível do homem. Se os gritos deste velho tiveram este efeito em mim, nem quero imaginar o que será assistir, por exemplo, em Gaza, à histeria dos nossos irmãos Palestinianos quando os vemos na televisão a carregar os seus mortos. As pessoas são assim mas é assim que eu gosto delas. São mais verdadeiras.

 

FORMAIS. Esta é a característica que mais define os Tunisinos a nível profissional. São muito formais – capazes de perder meia-hora a formatar um rodapé – mas depois têm alguma dificuldade quando chega a hora de arregaçar as mangas e passar à prática. Os portugueses, pelo contrário, são conhecidos pelo desenrasca e por fazer as coisas em cima do joelho. Conseguem ver a distância que nos separa? E a que nos une? O trabalhador português vê uma fuga de óleo e é capaz, ele próprio, de tentar resolver o problema, acaso sozinho, acaso sem conhecimento do seu superior, e acaso privado do necessário equipamento de protecção, habilitando-se assim a entrar para a estatística como mais uma vítima de acidente de trabalho. Quanto ao Tunisino, este apercebe-se da fuga, ignora-a – pois está quase na hora do almoço e a fome aperta – e só depois, só lá mais para o fim da tarde, se se lembrar, é que informa o seu superior da ocorrência. Sinceramente não sei o que é o melhor: se um Tunisino indolente se um Português chico-esperto. Sei apenas isto: somos tão diferentes (e no fundo tão iguais). Somos irmãos.

 

A Língua

 VERBO ÊTRE. Verbo que tanto designa “ser” como “estar”. E é justamente nesta dupla função que está o busílis da questão para um tipo como eu, que fala traduzindo literalmente do português para o francês. Chegará o dia, oxalá, em que tal não será necessário e o meu francês equiparar-se-á ao do Barroso em Bruxelas, saltando deste para o Inglês e do Inglês para este com a mesma facilidade com que o mesmo saltou de Primeiro-Ministro de Portugal para a Presidência da Comissão Europeia. Mas por enquanto é assim, na base do desenrasca, que me tenho safado.

 

Estar com fome conta como atenuante, mas não explica tudo. Expliquemos pois: pouco passaria da uma da tarde quando eu estava no gabinete do G. e este me pergunta: “Vamos almoçar?”. Ao que respondi: “Oui, parce que je suis «faime». “Como é que é?”, inquiriu G. de pronto. Após o que desatou às gargalhadas, como se vitimado por um ataque de cócegas. Se – comecei eu a pensar com os meus botões – je quer dizer “eu”, se suis quer dizer “estar” e se faim quer dizer “fome”, então Je suis faim quer dizer: “Eu estou com fome”. Certo? Errado. Em primeiro lugar, porque em francês apenas se utiliza o verbo Avoir (Ter) em conjugação com a palavra faim (fome). Em português, pelo contrário, tanto se utiliza o Ter como o Ser: tanto posso ter fome como estar com fome. E depois, como já devem ter reparado, porque aqui o taralhoco pronunciou mal a palavra faim: em vez de faim saiu “faime”. A última sílaba (me) é claramente uma reminiscência da palavra em português (fome). "Faime" não existe mas assemelha-se bastante à palavra femme, que em francês significa “mulher”. Ou seja, no fim de contas, o que eu disse foi: “Sim, porque sou mulher”. Frase que G. depois fez o favor de espalhar aos sete ventos, desde logo a começar pela cantina, onde almoçámos. Hoje, dois meses após o incidente, ainda há quem passe por mim e me pergunte: “Então, ainda tens fome?”

 

A Alimentação

CONDIMENTOS. Passadas duas semanas após a minha chegada à Tunísia, comecei a detectar um cheiro esquisito. Para onde quer que fosse, lá estava o mesmo cheiro: em casa, no carro, no trabalho… Uma mistura enjoativa de catinga, perfume roscofe e fruta em avançado estado de decomposição. Mas donde vem este pivete? Fiquei com esta pergunta na cabeça durante mais de um mês, pergunta para a qual apenas encontrei resposta na semana passada. Resposta: de mim próprio. É um facto científico que a alimentação determina o nosso cheiro. Já havia lido qualquer coisa sobre o assunto, pelo que bastaria somar 2 + 2: a alimentação determina o nosso cheiro + mudança de hábitos alimentares = mudança de cheiro. Aparentemente, a alimentação assaz condimentada faz-me cheirar a uma mistura enjoativa de catinga, perfume roscofe e fruta em avançado estado de decomposição. O cheiro é mau mas a comida é óptima.

publicado por visaocontacto às 10:00
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