Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Quem espera sempre alcança

 

David Magboulé

Imbiosis

Madrid, Espanha


Já antes da partida para Madrid, tinha programa para o primeiro fim-de-semana: a visita do Pedro e do João que vinham de Londres.
 
Tinha tudo preparado, sítio onde ficar (em casa do meu amigo Manuel), alguns dias para procurar casa antes de arranjar trabalho e algumas pessoas com quem entrar em contacto para facilitar a adaptação. E há que dizer que correu tudo como previsto. Quase tudo.
 
Passei as minhas primeiras três semanas num profundo extremismo entre o bem-estar, a alegria e a curiosidade, sentimentos provocados pela descoberta de uma nova zona geográfica, de uma nova cultura e de uma nova população, mas também por uma programação de divertimento recheada, novos conhecimentos à mistura, e isto tudo aliado à nova experiência profissional que estava a viver... experiência deveras interessante e inovadora a meu ver.
O sentimento oposto deveu-se ao desconforto pelo qual estava a passar, que não me deixava começar a criar raízes e tão pouco sentir-me integrado, se bem que esse processo demora e é faseado.
De facto, dormi no chão da sala do Manuel, durante as primeiras semanas. Mas literalmente. Ele não tinha um clochão extra e o sofá, apesar de confortável, era pequeno e deitado ficaria com a cabeça e os pés de fora e virados para cima, imaginem a forma de um ‘v’!
Por isso criei o meu próprio colchão, ao juntar dois sacos-cama que ele tinha um em cima de um outro, o que me ‘elevava’ a 5 cm do chão! Nada mal.
 
Nunca pensei que procurar casa em Madrid fosse tão complicado. Apesar dos inúmeros avisos prévios, tinha esperança em encontrar algo na primeira semana. Afinal, só queria um estúdio de ao menos 30 m2 no centro da cidade por volta de 600 eur!.. Além disso, depois da minha experiência como agente imobiliário em Paris durante o ano passado, sabia que seria difícil encontrar proprietários tão exigentes e inflexíveis.
Enganei-me. Vi casas e casas e casas, e ainda mais casas mas depois cada vez menos porque comecei o estágio e por isso tinha menos tempo mas também porque já estava farto e a desesperar.
Para já, a descrição dos apartamentos nos anúncios nunca correspondia ao que se via in situ. Para pior claro. Os preços eram exageradamente caros para a qualidade do imóvel (de vez em quando ainda me vem ao de cima a gíria imobiliária). E os senhorios não se conformavam com o simples pagamento duma caução e da primeira renda! Não! Queriam 2 às vezes 3 meses de caução (que provávelmente nunca iriam devolver), mais o ‘aval bancário’ (são 12 meses de renda postos de parte numa conta bancária que é desbloqueada se o inquilino não pagar a renda), mais contrato de trabalho e além disso que alugássemos o apartamento por pelo menos um ano (o que no nosso caso, não seria o caso)!!
Só faltava mesmo pedirem que os nossos pais e todos os familiares assinassem o contrato de arrendamento e que incorporassem um chip no nosso corpo ligado ao GPS deles para não nos perderem de vista!!
 
No meio de toda esta frustração, ainda em casa do Manuel a dormir no chão, com a roupa sempre dentro da mala, já a trabalhar, já a aproveitar o de melhor que Madrid tem para oferecer (boémia, diga-se) e a sentir-me meio adoentado, decidi exprimir um grito de ajuda e de revolta.... ao Yahoo Groups!!
 
É verdade, existem tantos portugueses nesta cidade, especialmente ‘não-contacteantes’, que se criou um grupo nessa plataforma chamado ‘tugasmadrid’ e para o qual mandei um mail a perguntar se alguém tinha um apartamento com um quarto a mais ou se sabiam de algum estúdio disponível mas sem ter que passar por todas aquelas barreiras acima-referidas.
 
Tinha realmente desistido da ideia de viver sozinho, o que não me incomodava nada porque já o fazia praticamente desde os 18 anos e porque queria estar à vontade, sabendo também que iria ter muitas visitas de amigos nestes 9 meses. Mas ao mesmo tempo não queria viver numa casa com 3 ou mais pessoas, tipo numa républica universitária, onde mal se pode ter o seu próprio espaço e a empatia entre os co-habitantes é sempre sui generis.
 
Foi aí que surgiu o Tiago, a minha salvação. Recebi uma chamada no dia seguinte a ter mandado o mail de um homem do Norte, de 35 anos, que estava à procura de alguém para dividir o seu apartamento em Goya, Salamanca (bairro residencial no centro, onde a procura é muita e a oferta escassa), de 110 m2, 3 quartos (um para visitas), já todo equipado e mobilado, com vista de esquina, internet e canal plus!
 
Depois de uma entrevista com a presença da sua ex-namorada (psicóloga!) que por acaso até conhecia de Lisboa (Portugal é assim), mostrei-lhe que estava muito interessado e sinceramente já nem sei se não acabei por suplicar para ficar nessa casa. Era tanto o desespero, e agora via uma luz no fundo do túnel (que dramático!).
 
Uma semana depois, já tinha tido resposta! Houve pressão, muita comunicação, alguma angústia, mas um final feliz. A ‘entrevista’ tinha corrido bem, tinha deixado boa imagem, e fui aceite! Estava tão contente como se tivesse sido seleccionado entre milhares para o posto de Secretário-Geral da ONU! (Sim, é um sonho... Se tiverem contactos lá, agradeço.)
 
Peguei nos meus aposentos logo quando recebi a excelente notícia meti-me num táxi e instalei-me. E foi até com uma certa pena e nostalgia já que me despedi de casa do Manuel, que tinha sido impecável em receber-me e insistir que eu ficasse lá até encontrar um apartamento, um bom amigo. 
 
Desde então a vida tem-me corrido na melhor das feições. A casa é um espanto, um conforto inigualável. O meu ‘housemate’ e eu temo-nos dado muito bem mesmo, já tive inúmeras visitas (prolongadas e curtas) nestas 2 semanas, muitas jantaradas, muito convívio, muito divertimento. Sinto-me mais enraízado na cidade e na cultura espanhola, e já me sinto mais estável e até mais concentrado no trabalho.
 
Esta casa proporcionou-me o que realmente se quer da vida: uma base sólida, que leva à tranquilidade e que por sí leva ao desfruto total das experiências.
Nunca se deve perder a esperança, quem espera sempre alcança.
publicado por visaocontacto às 10:51
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