Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

O meu Contacto.

   Ana Raquel Cunha - Soporcel - Madrid, Espanha.

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Encontro-me precisamente na última semana do estágio. Entre muito trabalho, nostalgia, festas de despedida e lágrimas, aproveito uma pausa e aqui faço um balanço destes últimos nove meses em terras de “orgullo ibérico”, reflectindo sobre as tão faladas diferenças existentes nos dois lados da fronteira.

 

Sendo assim, do lado castelhano, encontrei uma cidade:

·         Dinâmica, cosmopolita, aberta a novas culturas, que este ano foi palco do Festival Europeu do Orgulho Gay e onde muito dificilmente alguém se sente estrangeiro ou desintegrado. “El mundo vive hoy en Madrid”, um território onde diversidade é sinónimo de fertilidade e que, ao contrário do que eu esperaria do dogma do espanhol austero e elitista, fez-me sentir em casa desde o primeiro minuto.

·         Optimista, com um profundo sentimento comum de “orgulho ibérico” (muito embora pesem os problemas nacionalistas), que se faz notar desde o cantor do metro que diariamente ainda repete o “y viva la españa” até à cozinha de um pequeno escritório como o meu, onde se pode ver a fotografia que abre este texto simpaticamente exposta na máquina de café.

·         De callejeros, amigos, boas conversas e serões, de terrazas, tapas, cañas e tinto de verano e onde se toma sempre “la penúltima”; de ruído, pessoas extrovertidas que não falam, gritam, e onde o uso de palavrões convive harmoniosamente com toda a euforia que paira no ar.

·         Que não me presenteou com horas de sono, nem me brindou com horas de tédio, e que a nível cultural oferece mais do que o tempo que deixa em branco; que me habituou a fazer os carregamentos do telemóvel fora de horas, numa das inúmeras lojas chinesas espalhadas pela cidade e onde em 20 metros quadrados se vende desde pão a vinhos Rioja, passando por todo o tipo de artigos passíveis de enumeração.

·         Onde é proibido usar frases de empate como o “por favor” ou o “será possível” e onde o telefone é atendido, não com um “Estou sim...” , mas antes com um curto e directo “Digame...”

·         Que me ensinou a ser prática e desenrascada com a famosa teoria das lentejas: “ó las comes, ó las dejas”; e a não ficar indignada com respostas tão típicas como “lo comes con patatas”, quando procuro a solução para um problema.

·         Que me fez suspirar pelo mar e pelo pão que não fosse em forma de baguete; onde temi a ETA e grupos extremistas que diariamente se manifestam.

E um escritório:

·         Que muito embora pertença a um grupo empresarial português, acolheu pela primeira vez uma estagiária do país vizinho.

·         Que não me poupou a uma primeira semana de praxe na famosa Feira Aula de Madrid, e que, mesmo sabendo que era recém-licenciada e que não dominava perfeitamente o idioma, não hesitou em atribuir-me, na segunda semana, uma carteira de contactos para gerir diariamente como coordenadora de marketing do escritório.

·         Que, tal como a cidade, é multicultural e onde o GM, Ignacio Bereincua, rapidamente me explicou o funcionamento do mesmo, com um simples organigrama:

  

 

 

 

Nesse momento achei um pouco exagerada a tónica dada nas origens. Hoje consigo perceber o peso que estas adquirem na convivência e trabalho com cada um dos membros. Ainda neste ponto, ressalto o facto de o jantar de Natal de este ano estar reservado num restaurante Peruano, após doze anos de fidelidade a um Vasco.

·         Onde há hierarquias de trabalho, não de comunicação; onde o uso de títulos académicos e tratamento na terceira pessoa é anedótico e chega mesmo a ser inadequado.

·         Onde os 50 e-mails diários enviados pelo GM começam todos por “Familia,...” e terminam em “SOMOS LOS MEJORES!!! SIEMPRE LOS 1º...!!!!!! VAMOS A POR ELLO, VAMOS A POR ELLO, VAMOS A POR ELLO!!!!!”

·         De comerciais que viajam mensalmente a Portugal e ainda assim conseguem surpreender-me com expressões tal como “vou ter com as bigotas...” e com os “extremamente educados e tristes dos portugueses...”.

·         Onde a resposta a um pedido de informação a nível interno pode ser tão simples e normal como “npi” ( ni puto idea )!

·         Onde “menos es más” e por isso consegue ter dos melhores resultados do grupo e ao mesmo tempo praticar a jornada intensiva de Verão (substituição do horário de trabalho tradicional pelo das 8.00/14.00) e que lamenta o facto de a direcção portuguesa não permitir também a tão típica jornada intensiva das sextas feiras, durante todo o ano.

·         Que não dispensa o seu “paella lunch” em dias de sales conference, nem a oportunidade de se reunir em almoços até às 7 da tarde quando é necessário discutir algum tema “em familia”, e onde os melhores negócios muitas vezes surgem aliados a um Gin Tónico.

De uma forma geral, e em jeito de conclusão, resta-me dizer que estes nove meses foram uma verdadeira experiência de vida, onde aprendi o sentido pragmático da expressão “carpe diem”, vivendo a um ritmo alucinante, trabalhando sem complexos nem entraves à comunicação, acção e imaginação e divertindo-me em exagero. Gostei principalmente de integrar o “orgulho ibérico” e de com ele aprender que, tal como os espanhóis, devemos fazer mais por nós. Anseio, por isso, o dia em que verei o orgulho de ser português, não na máquina de café de um escritório, mas transparecido em cada olhar, palavra ou atitude de cada um dos nossos 11 milhões.

publicado por visaocontacto às 10:00
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