Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

O privilégio.

  

Marta Rodrigues  

Fundação Aga Khan 

Pemba, Moçambique.

 

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Acabada de regressar a Portugal, sentei-me à secretária, de lápis em punho, decidida a escrever em 600 palavras um artigo sobre a minha experiência enquanto “contacteante”. Comecei por pensar no que seria relevante partilhar com os leitores, revi mentalmente as regras de escrita jornalística e assumi-me incapaz de responder às perguntas do LEAD, ser objectiva e elaborar um texto de forma coerente.

 

Talvez porque acabei de chegar e ainda me sinto como se estivesse num “limbo”, de corpo em Portugal mas com o coração e a mente algures na savana africana.

 

"Quem?": Uma jovem portuguesa de 26 anos.

"Quando?": De Fevereiro a Novembro de 2007.

“Onde?”: Pemba, Província de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique.

“O quê?”: Um estágio num Programa de Desenvolvimento Rural da Fundação Aga Khan ou a experiência de uma vida.

 

Integrei um projecto cujo objectivo é fortalecer as iniciativas de pequenos empreendedores e estive envolvida na mobilização comunitária e capacitação de grupos de artesãos, ao nível da sua organização interna e capacidade de gestão, do desenvolvimento de produto, e do estabelecimento de links de mercado, visando a geração de rendimento e a consequente melhoria das suas condições de vida.

 

“Como foi?” O meu contacto foi…

 

Foi sentir o pulsar da Mãe Natureza… absorver com a alma mais do que os olhos podem alcançar... e o que as palavras jamais poderão descrever!

Foi ter o privilégio de viver numa das mais belas praias do mundo, banhar-me nas águas quentes do Índico, adormecer ao som das ondas e acordar ouvindo os pescadores regressar do mar!

Foi entregar-me aos ritmos, deslumbrar-me com as cores e extasiar-me com os odores do velho continente africano… apreender sensações… aprender com elas… descobrir-me nelas…

Foi aprender a esperar!

 

Mas também foi…

 

Adaptar-me aos constrangimentos de um país de uma democracia ainda frágil onde os efeitos da(s) guerras(s) se fazem sentir em cada olhar, em cada passo… em cada mão estendida, em cada polícia que nos pede “refresco”, em cada criança a quem a infância foi roubada, ou a quem nem sequer foi permitido ser criança…

 

Foi passar horas sem energia eléctrica, dias sem acesso à Internet, semanas sem iogurtes ou gás…

 

Foi percorrer km em 4x4… horas desconfortáveis de viagem para trabalhar nas aldeias mais remotas da Província de Cabo Delgado, a mais pobre do país. Chegar com a certeza de que os ossos saíram do sítio, entregar-me ao cansaço e dormir profundamente tendo o céu como tecto, espantando os receios das cobras, dos leões e dos elefantes…

 

Foi conviver com o medo da malária e fazer do repelente de insectos um acessório inseparável, ao lado do canivete suíço, dos toalhetes húmidos e da máquina fotográfica, elementos essenciais do meu kit de viagem!

 

Foi questionar… questionar-me! Pôr em causa o impacto do meu trabalho, ficar feliz com pequenas conquistas, perceber que os resultados só são visíveis no longo prazo e gerir as frustrações e dilemas inerentes a quem trabalha em Desenvolvimento: Valerá a pena? Estou a fazer a diferença? Mas que diferença?!

 

Foi aprender que saber esperar (sem desesperar) é uma virtude! Sorrir e encolher os ombros perante o já esperado “há-de vir”! Ajustar-me a um conceito de tempo baseado numa cultura de curto prazo, mas também incorporar noções diferentes de espaço e até de estética (em que outra parte do mundo um régulo – chefe da aldeia – me pediria em casamento, convicto de que as minhas ancas fazem magia?!)!

 

Foi perceber que os melhores sistemas e os mais elaborados planos de trabalho às vezes simplesmente não funcionam!

 

Foi trabalhar e viver em comunidades rurais, muçulmanas, poligâmicas e ter que superar a barreira de ser mulher, de ser solteira, de ser branca! Adaptar-me ao calendário muçulmano e respeitar o Ramadão. Inteirar-me sobre os mitos animistas, perceber as tradições, respeitar as crenças…

Foi inovar formas de comunicação, rascunhando na areia, adaptando o vocabulário, brincando com o sotaque… Atentar nos rostos buscando expressões que confirmem a recepção das mensagens…

Descobrir que “xiiiiiiiii” é não e que “eh” é sim e concluir que afinal, onde quer que estejamos, um sorriso vale mais que mil palavras!

 

publicado por visaocontacto às 11:12
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