Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Polónia, mais uma jornada

Amyn Mangi

BCP

Polónia, Varsóvia



“A mais longa jornada começa com um único passo”, é uma citação atribuída ao filósofo chinês Lao-Tzu (604 a.C. – 531 a.C.). Apesar de com 23 anos ser ainda novo, o primeiro passo da minha jornada já o dei hà algum tempo, aos 17 anos quando decidi que iria tirar o curso em Bristol, no Reino Unido. Curiosamente foi com um livro que tudo começou. O Fio da Navalha de W. Somerset Maugham conta a história de um jovem aviador da 1ª Guerra Mundial que, chocado com o absurdo e fragilidade da vida humana, embarca numa viagem de procura e descoberta intelectual e espiritual.

 

Penso que todos nos guardamos com afecto a lembrança de um professor que nos marcou, quer seja por despertar em nós o amor sincero pelo conhecimento quer seja por nos mostrar como o intelecto quando posto ao serviço de causas nobres pode conseguir resultados extraordinários, ou ainda, simplesmente por ser uma pessoa capaz de nos inspirar de alguma forma. O curioso é que muitas vezes estas pessoas ficam sem saber quão profundamente afectaram a nossa vida, ás vezes só com uma palavra ou um gesto. O “meu” professor recomendou-me o Fio da Navalha e, ao lê-lo, fiquei com vontade de viajar, de sair e descobrir o mundo, as culturas, as pessoas, as comidas, os risos. Quis experimentar a sensação de fazer parte da Humanidade. Lembrava-me do Fernando Namora, quando entrou um dia na Livraria Bertrand no Chiado e, ao ver-se rodeado de tantos livros, “toda à sua volta do chão ate ao tecto”, só conseguia ter um pensamento: “Não vivo para tanto livro”. Pois, aos 17 anos apercebi-me de que não viveria para tanto mundo. Candidatei-me a faculdades no Reino Unido, fiz as malas e, já com 18 anos, comecei a jornada.

 

Viajar é como uma bola de neve. O que custa as vezes é começar, mas depois de se vencer aquela inércia inicial, as coisas como que tomam o seu próprio rumo, ganham uma energia própria e, com um bocado de sorte, sem nos apercebemos, de repente olhamos para trás e já fizemos mais do que ousaríamos ter sonhado fazer.

 

Fast Forward para Marco de 2007, seis anos depois. 7h da manha. Acordo em Varsóvia. Este é o meu apartamento, na Rua Chmielna mesmo no centro de cidade, Os últimos anos foram passados a viver e a estudar lá fora. Para alem de Inglaterra (4 anos), vivi na Austrália (1 ano) – provavelmente o melhor ano da minha vida -, e viajei extensivamente não só pela Europa mas também pela Ásia.

 

Depois de terminar o curso candidatei-me a um programa de estágios internacionais do Icep, o INOV Contacto, do qual ouvi falar pela primeira vez quando conheci uns ex-contacteantes numa viagem a Copenhaga. Não escolhi vir para Varsóvia. Na realidade só fiquei a saber que vinha para Varsóvia uma semana antes de embarcar, já que o meu destino inicial, que também não escolhi, era Atenas.

 

O INOV Contacto funciona num modelo Kinder Surpresa: o candidato não sabe para onde vai, nem tem voto na matéria. Sabe apenas que participa num programa com boa reputação, e que tende a abrir portas e oportunidades profissionais para alem de oferecer a oportunidade de viver e trabalhar no estrangeiro. Depois de uma entrevista com o Millennium e depois de discutir as minhas aspirações profissionais – Banca de Investimento, mais especificamente Fusões e Aquisições, Corporate Finance e Advisory, mas também Mercado de Capitais – falou-se na possibilidade de ir para Varsóvia onde existe alguma actividade na Banca de Investimento e onde o Millennium até é um dos lideres de mercado em IPO’s (levar empresas para a bolsa), em vez de Atenas onde o estagio seria na Banca de Retalho. E cá estou eu, à já quase um mês. As primeiras semanas foram as mais complicadas, a tentar arranjar casa e instalar-me na minha nova cidade isto tudo sem falar a língua.

 

O Polaco é uma língua muito difícil de pronunciar – fiz dois níveis de japonês na Austrália e achei muito mais fácil do que o polaco - e não tem qualquer relação com a nossa ou com qualquer outra de que tenha o mais remoto conhecimento, por isso não existe a possibilidade de aprender por associação. Depois isto não é exactamente a Escandinávia, e quem julga que toda a gente fala inglês, terá uma grande desilusão. Os países a leste da antiga “Cortina-de-Ferro” tem como segunda língua o russo, e os polacos quanto muito falam um bocado de alemão. Claro que há sempre quem fale inglês, nos lugares turísticos e no centro da cidade, mas assim que as tarefas tenham que ver com os pequenos nadas que compõem o dia-a-dia, quer seja comprar uma toalha, ligar para o serviço de assistência técnica ou tratar da Internet lá para casa, o polaco torna-se essencial. Resolvi fazer um curso intensivo de polaco, 3h de 2ª a 5ª feira, depois do trabalho.

 

O estágio está a correr bem ate agora e só promete melhorar. Comecei por fazer um estudo do mercado da banca de investimento na Polónia e agora estou a trabalhar sob direcção do director de Research da banca de investimento do Bank Millennium na Polónia, o Millenium Dom Maklerski, ou Casa de Corretagem Millennium. O Marcin ganhou um prémio da Forbes de melhor analista da Polónia em 2005 e terei concerteza muito a aprender com ele.

 

 

Durante os 9 meses espero ainda fazer rotação na área de Transacções de Mercado de Capitais, que faz IPO’s, apesar de isso estar dependente de haver projectos para cotar empresas internacionais na bolsa de Varsóvia, já que os outros projectos são executados na sua quase totalidade em polaco. O mesmo se aplica a área de Fusões e Aquisições onde o Millennium DM tem ainda uma actividade incipiente.

 

Apesar de ter chegado há pouco tempo ao Millennium já sinto que o tempo que tenho para cá ficar é muito pouco em comparação com aquilo que quero e que tem para me ensinar. Sei que esta experiência dotar-me-á da substância teórica e pratica que me falta para começar uma carreira na banca de investimento. As possibilidades de carreira são infinitas, e podem passar por Portugal, pela Polónia ou mesmo por uma grande praça financeira internacional. Mas para já é viver um dia de cada vez e evitar especular (passe a expressão!).

 

No campo pessoal e social as coisas também estão a correr bem. Os polacos são um povo hospitaleiro e afável. Não se importam de perder uns minutos, umas horas ou uns dias para ajudar alguém que saibam que precise da sua ajuda. Têm uma vontade imensa de se superarem, a eles e à sua atribulada história, e emergir na nova Europa como lideres e vencedores. Nesse aspecto inspiram-me e reforçam o meu próprio entusiasmo a cada de dia que me levanto com a consciência de que lhes levo um pedaço do nosso país. Não que eles precisem de ser convencidos: Os polacos adoram Portugal. De acordo com os dados disponíveis, a Polónia foi o país que mais cresceu em importância para o turismo em Portugal o ano passado (aumentou 61%). O concerto da Mariza no Palácio da Cultura no fim de Fevereiro foi mais uma prova da facilidade que o povo português tem de criar pontes e relações com povos com quem partilha muito pouco. Foi também uma prova do afecto que o povo polaco tem por tudo o que é português. Afinal a musica, a arte, a beleza, o amor, o sentimento, são, como a matemática, linguagens universais.

 

Estou aqui á um mês e confirmo aquilo que tenho vindo a constatar os últimos 6 anos. Viajar por lazer e turismo é óptimo, claro. Mas viver nos países, acordar, ir comprar pão, tratar dos recadinhos, trabalhar e socializar num pais é uma experiência incomparavelmente mais profunda, complexa, difícil e enriquecedora do que meramente passar uma ferias e ficar hospedado num hotel. O problema é que nem sempre é possível harmonizar esta vontade de viajar e conhecer o mundo, as pessoas, as línguas e as culturas com os nossos outros objectivos, nomeadamente os profissionais.

 

O Inov Contacto oferece aos jovens portugueses essa possibilidade. Satisfaz-nos a nossa wanderlust ao enviar-nos para lugares inesperados ao mesmo tempo que nos oferece oportunidades e experiência profissional de classe mundial. Eu digo que quem ganha é Portugal.

 

 

publicado por visaocontacto às 11:00
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